Minhas frases preferidas de “Escritos da Casa Morta”, de Fiódor Dostoiévski

Também conhecido como Recordações da Casa dos Mortos ou Memórias da Casa dos Mortos, Escritos da Casa Morta é uma obra rica em referências autobiográficas do escritor russo Fiódor Dostoiévski.

O título, nesta nova tradução, foi escolhido pelo tradutor Paulo Bezerra, responsável pela versão publicada pela Editora 34 (essa foi a edição que li). No livro, ele explica a razão por trás dessa mudança no título, mas esse é um tópico para outro artigo.

Por ora, vamos nos concentrar na história de Escritos da Casa Morta. Você sabe sobre o que trata este livro?

Por que esse livro é importante? Um breve resumo da sua história.

Frases marcantes do livro Escritos da Casa Morta, que conta a experiência de Dostoiévski durante sua prisão na Sibéria.
Dostoiévski (à esquerda) na prisão siberiana de Omsk em 1853. Foto: Literatura Russa.

Em 1849, Fiódor Dostoiévski foi acusado de participar do grupo intelectual radical chamado Círculo Petrashevsky e sentenciado à morte. No entanto, em um ato inesperado, o czar Nicolau I mudou de ideia.

Pouco antes da execução, a pena de Dostoiévski foi convertida para deportação e trabalhos forçados. Em outras palavras, ele foi preso e obrigado a trabalhar para o regime czarista.

O autor foi enviado à Sibéria, onde passou um período na prisão em Tobolsk antes de ser transferido para Omsk, onde cumpriu sua sentença por quatro anos.

Essa experiência, marcada pelas pessoas que conheceu e pelas cenas que presenciou, foi tão impactante que influenciou profundamente todas as suas obras posteriores. Essa influência é clara em Escritos da Casa Morta, um livro com forte tom autobiográfico.

Embora Dostoiévski não revele explicitamente que a história retratada na obra é sobre suas próprias vivências, ele narra os acontecimentos através do personagem Aleksandr Pietróvitch Goriántchikov, um ex-prisioneiro da Sibéria. Por meio dele, o autor compartilha as lições aprendidas, os horrores testemunhados e os desafios enfrentados na prisão.

Se você já leu outras obras de Dostoiévski, como o famoso Crime e Castigo, vai notar que muitos dos personagens apresentados ali lembram os prisioneiros descritos em Escritos da Casa Morta.

Por isso, se você é fã ou admirador da literatura de Dostoiévski, essa leitura é indispensável para compreender sua vida, suas inspirações e como a vivência na prisão moldou seu trabalho.

Leia também: 35 frases de Irmãos Karamázov que você precisa conhecer

Uma motivação extra para você…

Para incentivar sua leitura, decidi compartilhar as 16 frases e citações que mais me marcaram nessa obra. Elas já dão uma boa ideia da profundidade e importância deste livro.

Confira abaixo:

16 frases marcantes do livro “Escritos da casa morta”

“Não se pode transformar um homem vivo num cadáver: ele segue tenho sentimentos, sede de vida e de vingança, paixões e a necessidade de satisfazê-las.”

“Todo tratamento desdenhoso, toda hostilidade irrita os de condição inferior.”

“Qualquer um, seja quem for e por mais humilhado que se sinta, mesmo que instintivamente, mesmo que inconscientemente, ainda assim exige respeito à sua dignidade humana. “

“O próprio detento sabe que é um detento, um réprobo, e conhece o seu lugar perante um superior; mas nenhuma marca de açoite, nenhum grilhão o faz esquecer que é um homem. E como é efetivamente um homem, logo, é preciso que receba um tratamento humano.”

Um tratamento humano pode humanizar até mesmo aquele em quem há muito tempo se apagou a imagem divina. É a esses ‘infelizes’ que cabe dispensar o tratamento mais humano. Isso é a sua salvação e a sua alegria.

“Encontrei comandantes assim bondosos e nobres de espírito. Vi o efeito que sua ação produzia nesses humilhados. Algumas palavras afáveis e os presidiários por pouco nãos ressuscitavam moralmente.”

Ninguém, de trás da murada/ entende o que aqui se vive,/ Mas temos conosco Deus-pai,/ Estamos salvos mesmo aqui.”

“Lembro-me de que logo logo passei, repentinamente e com impaciência, a me dedicar a todos os detalhes daqueles novos fenômenos, a ouvir as conversas e os relatos de outros presidiários, eu mesmo lhes fazia perguntas, obtinha as respostas. Desejava, entre outras coisas, conhecer forçosamente todos os graus das sentenças e das execuções, todos os matizes dessas execuções, a visão dos próprios presidiários sobre tudo isso; procurava imaginar o estado psicológico dos que caminhavam para suplício. Eu já disse que perante o castigo é raro alguém permanecer calmo, incluindo aqueles que antes já haviam sido espancados várias vezes.”

“Algumas pessoas são como tigres, sequiosas por lamber sangue. Quem uma vez experimentou esse poder, esse domínio ilimitado sobre o corpo, o sangue e o espírito de um semelhante, de uma pessoa criada da mesma maneira, um irmão pela lei de Cristo; aquele que experimentou o poder e a plena possibilidade de humilhar com a mais alta humilhação outro ser que traz em si a imagem de Deus, este, involuntariamente já deixou de ser senhor dos seus prazeres.”

A tirania é um hábito; tem seu próprio desenvolvimento e, enfim, se converte em doença. Acredito que o melhor dos homens pode abrutalhar-se e embotar-se por hábito, até chegar ao nível de um animal. O sangue e o poder embriagam: desenvolvem-se a grosseria, a perversão, os fenômenos mais anormais se tornam acessíveis e, por fim, doces ao intelecto e ao sentimento. O homem e o cidadão morrem para sempre no tirano, e apara ele se torna quase impossível retornar à dignidade humana, ao arrependimento, ao renascimento.

“O direito de aplicar o castigo físico, direito que é concedido a um indivíduo em detrimento dos outros, é uma das chagas da sociedade, um dos meios mais poderosos para a destruição de qualquer embrião, qualquer tentativa de civismo que ela venha a ter, é a razão completa de sua desintegração fatal e inelutável.”

“Nenhum homem vivo subsiste sem um objetivo e a aspiração de atingi-lo. Depois de perder o objetivo e a esperança, o desgosto com frequência faz o homem transformar-se num monstro…”

“A realidade é infinitamente mais diversa se comparada a qualquer conclusão – mesmo as mais sutis – a que pode chegar o pensamento abstrato, e não suporta discriminações grosseiras e vultuosas. A realidade tende à fragmentação.”

“Recordo que durante todo aquele tempo, apesar da presença de centenas de companheiros, eu vivia uma terrível solidão, e acabei gostando dessa solidão. Espiritualmente só, eu revia toda a minha vida pregressa, examinava tudo até os ínfimos detalhes, refletia sobre o meu passado, julgava a mim mesmo de forma implacável e severa e vez por outra até abençoava o destino por me haver concedido aquela solidão, sem a qual não teria feito esse autojulgamento da minha vida pregressa.”

Eu pensava, eu resolvia, eu jurava a mim mesmo que em minha vida futura não haveria mais os mesmos erros, nem as quedas de outrora. Eu delineava um programa para todo o meu futuro e estava decidido a segui-lo com firmeza. Em mim renascia a fé cega de que eu cumpriria com tudo aquilo, de que era capaz de cumprir… E esperava, clamava por liberdade, que viesse o mais rápido possível; queria pôr-me à prova mais uma vez, numa nova luta.

“E quanta mocidade fora enterrada inutilmente naquelas muralhas, quantas forças poderosas ali pereceram em vão! Vamos, é preciso dizer tudo: vamos aquela era uma gente extraordinária. Pois é possível que aquela fosse até mesmo a gente mais talentosa, a gente mais forte de todo o nosso povo. E aquelas forças poderosas pereceram em vão, pereceram de forma anormal, ilícita, irrecuperável. E de quem é a culpa?”


Espero que essas frases e citações de Escritos da Casa Morta ajudem você a captar um pouco da profundidade e da importância dessa obra incrível.

Se você já leu Escritos da Casa Morta, compartilhe comigo suas impressões ou frases que também te marcaram. E, se ainda não leu, que tal colocá-lo na sua lista de próximas leituras? Fica a dica!

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Curiosa, apaixonada por livros e completamente consciente de que ainda tem muito a aprender. Aqui, compartilho um pouco desse universo!
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